Os mais atingidos pela crise inflacionária, aos pobres do reino português restava um último motivo de orgulho, oriundo da hegemonia da mentalidade aristocrática: a identidade cristã. Seus olhares rancorosos se voltaram para as comunidades que viviam nos bairros judaicos , as judiarias , e para os cristãos-novos, vistos sempre com desconfiança. Ataques a essas comunidades e denúncias de seus membros ao Tribunal do Santo Ofício eram práticas correntes da população empobrecida e de mercadores cristãos-velhos, estes motivados por interesses e rivalidades mercantis. Por ironia, tanto os judeus e cristãos-novos quanto os cristãos-velhos tinham na América uma alternativa para as dificuldades verificadas na Metrópole. Por sua extensão e possibilidades de enriquecimento , a América tornou-se um lugar de refúgio para a comunidade judaica portuguesa. Muitos comerciantes da nação hebréia , como era denominado o conjunto dos judeus em Portugal, fugiam para regiões da Europa de menor intolerância religiosa. Em Roma, apesar de a cidade sediar o poder pontifício , os judeus tinham condições mínimas para o exercício de suas atividades e a prática de sua fé. Mas foram regiões da França e principalmente da Holanda que mais abrigaram os judeus portugueses. Comerciantes fixaram-se em território holandês, dominado pelo calvinismo, e mantiveram seus negócios, muitas vezes relacionados com o açúcar brasileiro. O refinamento do produto, sua distribuição na Europa e até mesmo o financiamento de engenhos foram realizados por holandeses , de fé cristã ou judaica.
